Vivências e convivências

Vivências e convivências

terça-feira, 12 de julho de 2016

Pertencimento ao Secretariado - parte III



4 EDUCAÇÃO: O CAMINHO MAIS SEGURO

A ausência de pertencimento gera a onda do descartável, do desapego: nos relacionamentos, nos empregos, com as pessoas, com o conhecimento construído, com a história de vida vivida. As inovações tecnológicas de comunicação e informação, tão presentes em nosso cotidiano profissional e pessoal, deram-nos tanta ilusão de autossuficiência que nos fizeram esquecer de que somos parte de algo maior. Hoje, evitamos o envolvimento, privilegiamos o distanciamento. Evitamos o contato face a face e servir o outro. Contudo, queremos estar em todos os lugares, virtualmente.
Como então desenvolver o sentimento de pertencimento ao Secretariado, que é o objeto dessa reflexão?
De acordo com Santos (2011, p. 38), Bourdieu defende que a educação assume uma importância capital na entrada para o campo profissional.  Complementa afirmando que “a formação, além de capacitar tecnicamente o futuro profissional, realiza o papel de adequação do olhar, da visão de mundo do futuro profissional às expectativas do grupo profissional.”
Nesse artigo, adotamos formação como sinônimo de educação, pois os entendemos como “processo contínuo de construção de habilidades e competências capazes de possibilitar a um sujeito participar ativamente das mudanças sociais, econômicas e políticas, e não atuar como mero espectador relegado à condição de sujeito”. (WAMSER, 2000, p. 112)
Nessa direção, acreditamos que a educação é e será o caminho para se (re)construir uma consciência coletiva na criação do sentimento de pertencimento ao Secretariado. Nada se constrói, ou se reconstrói sem educação. Só avançaremos no Secretariado, e com o Secretariado, pelo viés da educação. A educação é a chave para abrir caminho para a excelência pessoal, social e profissional, e nos permite buscar sermos melhor hoje do que ontem. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação.
Como diz Freire (1997, p. 28), “a educação tem caráter permanente. Não há seres educados e não educados. Estamos todos nos educando.” Afinal, o ser humano é um ser inacabado, está sempre em construção. Aliado a isso, o processo de evolução das inovações tecnológicas e da própria sociedade exige uma educação permanente de seus componentes. Conforme Knechtel (1995, apud WAMSER, 2000), a educação permanente é decorrência de uma necessidade de se construir continuamente novas atitudes e novos modos de pensar, ler e interpretar o mundo, que sofre mudanças contínuas, velozes e turbulentas.
Defendemos aqui um processo de educação que proporcione uma leitura de mundo, o desenvolvimento da capacidade da pessoa de se engajar em projetos e ações, consciente de sua responsabilidade social e ética; consciente da necessidade de aprender a aprender e saber pensar, para poder agir e ajudar a transformar o contexto no qual está inserida. (WAMSER, 2000). Defendemos uma educação que dê conta de (re)construir uma consciência ampliada desse pertencimento tanto ao Todo Cósmico como ao Secretariado.
O papel dos cursos de Secretariado Executivo é a formação de secretários executivos para atuarem em um mercado altamente competitivo e em constantes transformações. Segundo a Proposta das Diretrizes Curriculares para os Cursos de Secretariado Executivo, devem oferecer ao mercado de trabalho profissionais com competência para promover e participar da melhoria do processo de gestão e desenvolvimento de organizações públicas e privadas, na busca do aumento de produtividade e competitividade. (WAMSER, 2000)
É necessário levar os estudantes a aprender a aprender e desenvolver a responsabilidade pela construção do seu conhecimento. Para Moraes (1997), o processo de construção do conhecimento acontece através da aprendizagem, que não significa memorização pura e simples, mas significa dizer que, se o sujeito efetivamente aprendeu, será capaz de construir o conhecimento tempos depois. O sujeito constrói o conhecimento, fazendo uso do raciocínio, da percepção do mundo externo pelos sentidos e sensações, dos sentimentos, das emoções, da razão, da intuição. Constrói o conhecimento a partir de sua interação com a realidade.
Fato é que a educação formal ainda está apoiada numa visão tradicionalista que reforça a fragmentação do conhecimento, continua centrada no professor e na transmissão do conteúdo. Wamser (2000) ressalta que os conteúdos trabalhados em sala de aula raramente são extraídos do cotidiano dos estudantes, de seus problemas práticos. São, algumas vezes, tão distantes que os estudantes questionam o porquê deste ou daquele assunto.
Alguns professores, infelizmente, estão voltados unicamente para sua disciplina. São raros os que têm visão geral das disciplinas que compõem a estrutura curricular do curso de Secretariado. Assumem as aulas, mas não se comprometem com o curso. Não têm uma participação efetiva na construção do conhecimento e desenvolvimento de competências e habilidades dos estudantes. Sabem pouco de seu cotidiano.
Por outro lado, há também professores empenhados em enfocar conteúdos cada vez mais próximos da realidade dos estudantes, usando a pesquisa como atitude cotidiana, evitando o mero repasse copiado de informações. Desafiam os estudantes através de reflexões, enquetes, situações-problemas e seminários, a não se contentarem em reproduzir determinado conhecimento acumulado, mas sim reelaborá-lo depois de confrontá-lo com suas próprias experiências. Enfim, propiciam condições para o estudante ler, questionar, investigar, refletir, analisar e emitir seu ponto de vista. (WAMSER, 2000)
Moraes (1997) é defensora de uma educação global que leve o estudante a trabalhar em harmonia e compreensão, a desenvolver padrões de comportamento como cooperação, criatividade, responsabilidade, respeito aos direitos humanos. Consciente de fraternidade humana e a percepção de que não estamos sós e de que não podemos crescer isolados. Podemos dizer que precisamos de um processo de educação que promova a expansão do capital espiritual com cujo potencial todo ser humano nasce, e que se reflete em valores, princípios e propósitos que compartilhamos.
Nas palavras de Zohar e Marshall (2004, p. 15), inteligência espiritual “é aquela por meio da qual acessamos nossos valores mais profundos, que nos faz usá-los nos processos mentais, nas decisões que tomamos e nas realizações que valem a pena.” Acrescentam que a inteligência espiritual é a inteligência moral, com a qual exercitamos a bondade, a verdade, a beleza e a compaixão.
Torna-se necessário, contudo, aprender a olhar sob uma perspectiva mais global, holística, integral, onde o “todo seria mais do que a soma das partes”, de acordo com Edgar Morin, lembrado por Moraes (1997, p. 72). E ao mesmo tempo “o todo está também em cada parte”, no que a autora destaca que “um indivíduo não está somente dentro da sociedade, mas a sociedade enquanto todo está também dentro do indivíduo (através de seus hábitos culturais, das influências em suas mentais etc)”.
Essa visão, para Moraes (1997, p. 73), “nos leva a compreender o mundo físico como uma rede de relações, de conexões, e não mais como uma entidade fragmentada, uma coleção de coisas separadas”. Vai exigir de cada um de nós um grande esforço, diariamente, para nos afastarmos sempre mais de uma visão de mundo cartesiana, mecânica, que nos separa de nossos relacionamentos, não reconhece a importância do contexto no qual estamos inseridos.
De forma mais objetiva, no sentido de desenvolver maior sentimento de pertencimento, a educação pode colaborar ajudando o profissional a, primeiro, compreender a si mesmo (autoconhecimento), para saber quem é, qual o seu mais alto potencial, quais os seus talentos, as suas qualidades e os defeitos que possui (MORAES, 1997). Segundo, pode ajudá-lo a desenvolver uma autoconsciência crescente do que é importante na vida e na profissão, de que a sua responsabilidade é bem mais ampla do que ter o Secretariado apenas enquanto profissão. A contribuição deve ser no sentido de possibilitar a compreensão das dimensões que a profissão abarca, no que ela se constitui para a sociedade enquanto profissão, e no que ele representa para a sociedade como pertencente ao grupo profissional. Zohar e Marshall (2004) enfatizam que o ser humano tem a obrigação de assumir alguma responsabilidade pela sociedade. Parafraseando, podemos dizer que um profissional tem a obrigação de assumir alguma responsabilidade pela profissão que decidiu ter.
Em terceiro ponto, a educação pode ajudar a construir uma postura profissional pautada em princípios e valores éticos, traduzidos em credibilidade, envolvimento, comprometimento e respeito com a coletividade em forma de liderança. Cabe ressaltar que o Secretariado merece contar com o surgimento de lideranças com credibilidade e capacidade para aglutinar, mobilizar e impulsionar a geração atual e as gerações futuras em um direcionamento comum de pertencimento. Lideranças capacitadas e qualificadas: técnica, metodológica e moralmente. Deverão ser pessoas íntegras, com sabedoria para servir a algo maior do que a si próprias.
A geração que esteve à disposição para servir e se dedicou às causas do Secretariado até hoje, sempre o fez com uma profunda sensação de que não podia deixar de fazer o que tinha de fazer. Foi determinada e persistente diante das adversidades. Agora, chegou a vez da geração jovem de continuar a tarefa, porque um profissional se ausenta de seu grupo ao se omitir na disponibilidade de liderar.
O momento é oportuno para isso. A profissão tem plenas condições de sair fortalecida na medida em que o sentimento de humildade for o elemento balizador entre as gerações do grupo profissional. A humildade, segundo Zohar e Marshall (2004, p. 145), “abre a possibilidade de aprender com os outros e com a própria experiência”, além de ajudar na percepção de se ver como parte da humanidade, do universo.
A sustentabilidade do Secretariado como profissão será garantida com o comprometimento de todas as partes, e à medida que aumentar o grau de pertencimento de cada uma delas. A tarefa não poderá ficar para o outro. É de todos que pertencem ao grupo profissional.
 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Este artigo teve o objetivo de iniciar uma reflexão acerca do sentimento de pertencimento que permeia o ser e fazer do profissional de Secretariado no cotidiano do mundo corporativo.
A reflexão aqui estabelecida foi amparada na leitura de alguns teóricos e estudiosos que tratam do objeto de análise. Contudo, foi particularmente baseada em nossa consciência de pertencer ao grupo profissional como secretária executiva trilíngue e como professora universitária.
Convém salientar que a nossa discussão em defesa da sustentabilidade do Secretariado sempre estará impregnada de fundamento histórico que começou a se escrever desde a decisão tomada em 1976 de que seria uma Secretária Executiva Trílingue bem sucedida. De alguém que acredita na profissão.
Assim, inicialmente, apresentamos alguns aspectos teóricos sobre o sentimento de pertencimento, sem, contudo, aprofundar a análise das teorias, em virtude de nossos estudos ainda serem muito insipientes.  Indiferente do grupo profissional, o sentimento de pertencimento deve levar um profissional a uma consciência de maior significado, a uma visão animadora ou inspiradora, a um profundo senso de propósito como ser humano e profissional.
Em seguida, abordamos conquistas do Secretariado enquanto profissão regulamentada. Permitimo-nos, também, tecer comentários a respeito de alguns indícios que merecem nossa inquietação por sinalizarem uma ausência de pertencimento por parte de integrantes do grupo profissional. Um secretário não pode mensurar o pertencimento à profissão unicamente pelo valor de seu contracheque no final de cada mês. Mas, deve mensurá-lo pelo nível de sentimentos de realização, gratidão, respeito, de bem estar, da melhoria de seu entorno, do contexto no qual está inserido, em ganho de qualidade de vida.
Após, indicamos, como caminho, para o desenvolvimento de um maior sentimento de pertencimento, um processo de educação que privilegie também a educação espiritual. Defendemos que é pelo viés da educação que se conseguirá neutralizar os indícios de ausência de pertencimento e coibir que outros surjam oportunamente.
De forma resumida, podemos dizer que demonstrar sentimento de pertencimento à profissão significa:
Ø  comprometimento e orgulho de exercê-la.

Ø  mostrar, com exemplos, que vale a pena optar pelo Secretariado.

Ø  valorizar a história de vida e levá-la em consideração na construção da carreira.

Ø  ser gestor do próprio conhecimento e construir um plano de carreira audacioso que contemple o desenvolvimento pessoal e profissional.

Ø  engajar-se em grupos de estudo, de pesquisa e de intercâmbio de experiências para aprender novas metodologias, compartilhar experiências e conhecimentos.

Ø  criar, ampliar e aprimorar as condições de assessoramento por intermédio da formação continuada para manter a empregabilidade, agregar valor e responsabilidades ao cargo.

Ø  construir uma imagem de credibilidade pela convivência harmoniosa com as pessoas nos diversos ambientes.

Ø  incentivar jovens a optarem pela profissão, enfatizando, entretanto, o quão importante é investir na formação acadêmica e profissional para atuar na área.

Ø  posicionar-se (jamais omitir-se) em discussões que porventura estejam se referindo à profissão como uma atividade de menor importância, depreciando sua imagem. Aproveitar a oportunidade para esclarecer o que é ser profissional do secretariado na atualidade.

Ø  evitar entrar na falácia de outrem para denegrir a profissão e o grupo profissional diante da sociedade, tanto presencialmente como nas redes sociais.

Ø  tratar as pessoas com dignidade e respeito, independentemente da posição destas na escala hierárquica.

Ø tornar-se um “líder a serviço”, ou seja, um líder disposto “a servir à comunidade, ao planeta, à humanidade, aos futuros, à própria vida”. (ZOHAR, MARSHALL, 2004, p. 37). Um líder que, ao lado das lideranças corporativas, possa atuar por intermédio de suas ideias e ações para contribuir na transformação do mundo dos negócios em um sistema mais humano e plenamente sustentável.
Certamente, essa postura de pertencimento irá, também, exigir das Instituições de Ensino Superior um sentimento de comprometimento com a formação de Secretários competentes pessoal e profissionalmente e capazes de viver e conviver com mudanças organizacionais, administrativas, tecnológicas e ambientais, e que, acima de tudo, se compreendam e sejam acessíveis, também, à compreensão das pessoas e das coisas. (WAMSER, 2000).
Para finalizar, acreditamos que este artigo é o impulso para o desencadeamento de discussões profícuas e enriquecedoras com o grupo profissional a respeito do sentimento de pertencimento ao Secretariado. 

REFERÊNCIAS 

ALBERNAZ, C. B. L. O secretário executivo como gatekeeper da informação. 2011. Tese de doutorado, Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil. Disponível em http://repositorio.unb.br/handle/10482/10089?mode=full&submit_simple=Mostrar+item+em+formato+completo.  Acesso em: 20 jan.2015. 

AMARAL, A. L. Pertencimento. Disponível em: http://escola.mpu.mp.br/dicionario/tiki-index.php?page=Pertencimento. Dicionário dos Direitos Humanos. Acesso em: 5 mai.2016. 

D`AMBRÓSIO, U. A era da consciência. São Paulo: Editora Fundação Peirópolis, 1997.
D´ELIA, M.E. Profissionalismo: não dá para não ter. São Paulo: Editora Gente, 1997.
FARINA, B.C.; TRARBACH, D.M.  Inclusão e a formação de lugares: do pertencimento à estigmatização. (2009) Disponível em: ttp://www.agb.org.br/XENPEG/artigos/ GT/GT3/c3%20(40).pdf Acesso em: 15 mai. 2016.
FREIRE, P. Educação e mudança. 21.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
MORAES, M. C. O paradigma educacional emergente. Campinas, SP: Papirus, 1997.
MUSSAK, E. Metacompetência: uma nova visão do trabalho e da realização pessoal. São Paulo: Editora Gente, 2003.
SANTOS, A. F. P. R. Principais abordagens sociológicas para análise das profissões. BIB, São Paulo, no. 71, 1º semestre de 2011, p. 25-43.

WAMSER, E. A secretária que faz. Blumenau: Nova Letra, 2010.
WAMSER, E. O impacto das mudanças organizacionais na profissão de secretário e a contribuição do estágio supervisionado em sua formação. 208f. 2000. Dissertação (Mestrado em Educação), Universidade Regional de Blumenau, Santa Catarina, 2000. Disponível em: http://www.abpsec.com.br/abpsec/index.php/a-pesquisa/repository/Dissertação/O-IMPACTO-DAS-MUDANÇAS-ORGANIZACIONAIS-NA-PROFISSÃO-DE-SECRETÁRIO-E-A-CONTRIBUIÇÃO-DO-ESTÁGIO-SUPERVISIONADO-EM-SUA-FORMAÇÃO/. Acesso em: 15 mai. 2016.
ZANETTI, E. Senso de Pertencimento. Disponível em: http://www.eloizanetti.com.br/blog/ 2010/09/senso-de-pertencimento/. Acesso em: 8 mai. 2016.
ZOHAR, D.; MARSHALL, I. Capital espiritual: usando as inteligências racional, emocional e espiritual para realizar transformações pessoais e profissionais. Rio de Janeiro: BestSeller, 2006.

 

Pertencimento ao Secretariado - parte II



3 SECRETARIADO: CONQUISTAS E OBSERVAÇÕES SILENCIOSAS
 

Somado às demandas e exigências advindas dos desafios de uma gestão sustentável, as empresas estão sendo afetadas pelo cenário atual do Brasil: um cenário nervoso, inseguro, agitado, incerto, devido às indefinições políticas e econômicas.
As empresas estão tendo que tomar decisões estratégicas, com sua implementação conduzida pela ação, pelo empenho e pela competência dos profissionais que nelas trabalham. Isso demanda profissionais responsáveis e qualificados para maximizar recursos e tempo, além do estabelecimento de uma relação de confiança pautada no envolvimento e no comprometimento. E, acima de tudo, em um aprendizado contínuo. Num piscar de olhos ou num vacilo, um profissional, indiferente de sua posição, poderá ter seu emprego afetado. Não há chance de improvisar no trabalho.
O profissional de Secretariado integra essa equipe como assessor direto de executivos no desempenho das funções. Tem responsabilidade com as gerações futuras e com a garantia de sua empregabilidade. Por quê? Primeiro, como ser humano que pertence a esse Todo Cósmico, como muito bem nos lembra D`Ambrósio (1997). Segundo, como profissional que fez o juramento de exercer a profissão dentro dos princípios da ética, da integridade, da honestidade, e da lealdade; respeitar a Constituição Federal, o Código de Ética Profissional e as normas institucionais; buscar o aperfeiçoamento contínuo e contribuir, com o trabalho, para uma sociedade mais justa e mais humana.
Se fossemos considerar unicamente a mensagem advinda desse juramento transferida literalmente para o fazer e o agir no cotidiano do Secretariado, teríamos automaticamente garantido o sentimento de pertencimento da categoria. No entanto, o sentimento de pertencimento decorre do estado emocional, cultural e social do indivíduo em determinado contexto. (FARINA, TRARBACH, 2009). Decorre da conscientização e clareza por parte do profissional de Secretariado de que ele integra um grupo profissional que é regido por uma legislação, um código de ética e um escopo de atividades e atribuições que lhe são pertinentes.
Comunica o seu sentimento de pertencimento, ou não, por intermédio da postura profissional e pessoal que decide adotar. Para Mussak (2003, p. 171), “postura é a maneira como nos posicionamos perante o mundo, e isso vale tanto para atitudes corporais como mentais.” Tem a ver com o fato de assumir uma posição no local em que se está. Postura é uma forma de comunicação por intermédio do qual o profissional diz se está ou não comprometido com os preceitos da profissão, e como quer ser visto e reconhecido no mercado de trabalho.
 Essa postura é percebida, por exemplo, quando o profissional é capaz de visualizar a trajetória que a profissão percorreu da época áurea da máquina de escrever até hoje, reino da Internet e do mundo virtual. Muitas foram as mudanças que ocorreram na função de secretário até chegar a ser uma profissão reconhecida por lei. Outras tantas foram as conquistas alcançadas. Sem a pretensão de lembrar todas, convém recordar algumas.
A publicação do código de ética profissional, a exigência de registro profissional e a formação em nível superior, são, no nosso entender, conquistas significativas, que levaram a tantas outras. A exigência de formação (bacharelado), por exemplo, desencadeou a abertura de cursos superiores de Secretariado em âmbito de Brasil, que por consequência provocou a necessidade de se capacitar professores de Secretariado. Programas de extensão universitária na área foram contemplados; a pesquisa científica em Secretariado foi ganhando corpo com o surgimento de revistas científicas; a constituição da Associação Brasileira de Pesquisa em Secretariado – ABPSEC, que responde de forma institucionalizada pela difusão da produção científica da área, bem como promover o intercâmbio e a cooperação entre professores e pesquisadores em Secretariado. Os eventos de Secretariado também se expandiram em todas as regiões do Brasil.
Em 2004, o Ministério da Educação (MEC), por intermédio da Secretaria de Educação Superior (SESu), aprovou e divulgou as Diretrizes Curriculares para os Cursos de Secretariado Executivo. O documento relaciona as competências e habilidades que as Instituições de Ensino Superior devem privilegiar na formação de bacharéis em Secretariado Executivo. Em 2006 iniciou-se o processo de aprendizagem dos estudantes pelo Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes – ENADE.
Concomitantemente, houve a abertura de cursos de pós-graduação lato sensu, que compreendem programas de especialização, bem como uma gama considerada de cursos de aperfeiçoamento profissional por diversas entidades e instituições.
São conquistas que resultaram do empenho, do envolvimento, do comprometimento de um grupo profissional pautado em um profundo senso de pertencimento ao Secretariado. São 30 anos de regulamentação que merecem ser comemorados pela categoria, porque acreditamos que cada um pertencente ao grupo profissional deu sua contribuição, do seu jeito, a partir de seu espaço e das condições que tinha. 

Por outro lado, também, há sinais que merecem uma atenção mais dirigida porque podem, num futuro próximo, fragilizar o Secretariado como profissão. Esses sinais tornaram-se recorrentes, nos últimos dois anos, em conversas com estudantes e bacharéis em Secretariado durante aulas na graduação ou pós-graduação e em cursos de desenvolvimento profissional, sem considerar os comentários que permeiam determinados grupos nas redes sociais. Por meio de conversas e observações fizemos uma silenciosa e pessoal análise do cenário, que pontuaremos nos parágrafos seguintes.
Apesar dos 30 anos de regulamentação, a sociedade ainda reluta em reconhecer o Secretariado como profissão. Verdade é que considerável proporção de bacharéis não consegue atribuir valor ao título, que é obtido por intermédio da formação. A formação, na interpretação de Parson apud Santos (2011), é a integração do profissional ao corpo social para o desempenho de sua função.
Ao citar estudos de William J. Goode, Santos (2011, p. 27-28) escreve que “a sociedade mantém o controle sobre os profissionais, que desempenham funções específicas no corpo social, e os grupos profissionais protegem os profissionais de serem constrangidos pela sociedade como um todo”. Com base na concepção weberiana de abordar as profissões no campo da Sociologia, Santos (2011, p. 31) destaca que as “profissões se estabelecem como unidade integradora e excludente ao mesmo tempo, cumprindo a dupla função de fechar os grupos profissionais em si e estabelecer a competição com os outros grupos profissionais”.
No subconsciente organizacional ainda persiste o entendimento do Secretariado  tratar-se de uma “ocupação”.  De acordo com Parsons (1939, apud SANTOS, 2011, p. 11), “toda profissão é ocupação, mas nem toda ocupação é profissão”, porque entende que uma profissão teria a preocupação de devolver à sociedade os conhecimentos desenvolvidos.
 A regulamentação e a formação não estão conseguindo dar força e sustentação à carreira em Secretariado. É recorrente vermos profissionais graduados traçando suas carreiras, a partir da sua “ocupação” nas empresas, desatrelando-as da profissão.
O registro profissional ainda é exigência feita por poucas empresas. A maioria ignora a legislação; faz isso com a conivência do bacharel em Secretariado, que se omite em requerer o registro profissional. A formação profissional, para Merton (apud SANTOS, 2011), permite a socialização dos futuros profissionais nos valores de serviço à sociedade. O sociólogo afirma que o diploma na mão é a forma de um profissional se distinguir do não profissional. Ou seja, daquele que não fez o percurso da formação.
Iniciativas isoladas conseguem manter o Secretariado vivo e presente no mundo corporativo, porém sem avançar. Entidades de liderança sindical, universidades, professores, estudantes, profissionais graduados, pesquisadores, cada um faz sua parte, porém com  dificuldade de juntos encontrarem o eixo norteador.  Torna-se primordial conversar mais para amarrar as pontas, que permanecem soltas desde a regulamentação profissional, e que poderão levar à perda de consistência ao se debater a profissão.
Os jovens bacharéis em Secretariado “gritam” e “brigam” pela sua inserção no mercado de trabalho. Contudo, não “gritam” e nem “brigam” pelo Secretariado enquanto profissão constituída que é. Fazendo analogia com as responsabilidades que temos diante da sustentabilidade de nosso planeta, da mesma forma que nos omitimos com relação às mudanças climáticas, como algo distante de nossa realidade, algo inatingível, a geração jovem do Secretariado omite-se das responsabilidades de se comprometer com a profissão. Tem dificuldades de se perceber no contexto do mercado de trabalho como profissional do Secretariado e delega a responsabilidade para lideranças sindicais, professores, pesquisadores.
Por sua vez, as Instituições de Ensino Superior, também, não têm conseguido se comprometer institucionalmente com a profissão de Secretário. O que se tem visto são resultados positivos conquistados pelo mérito de poucos docentes fortemente comprometidos e com um alto grau de senso de pertencimento.
Na direção contrária, também, acompanhamos professores de Secretariado optando por outras graduações porque pretendem migrar para outra área por terem desistido do Secretariado. Cabe, no entanto, perguntar: com que senso de pertencimento ministram suas aulas no Secretariado? Aliado a isso, assistimos a um esvaziamento dos cursos de Secretariado em âmbito de Brasil.
Em suma, são indícios de que o Secretariado carece de atenção por parte de seu grupo profissional, em uma época em que se vive virtualmente conectado e plugado com todas as partes do mundo, recebendo centenas de “curtidas” por socializar sentimentos e emoções. Por outro lado, perde-se a verdadeira noção de “pertencer”, de se sentir integrante, de se envolver, de se comprometer, tanto com o meio onde se vive, como com a profissão que se exerce.