Vivências e convivências

Vivências e convivências

terça-feira, 12 de julho de 2016

Pertencimento ao Secretariado - parte III



4 EDUCAÇÃO: O CAMINHO MAIS SEGURO

A ausência de pertencimento gera a onda do descartável, do desapego: nos relacionamentos, nos empregos, com as pessoas, com o conhecimento construído, com a história de vida vivida. As inovações tecnológicas de comunicação e informação, tão presentes em nosso cotidiano profissional e pessoal, deram-nos tanta ilusão de autossuficiência que nos fizeram esquecer de que somos parte de algo maior. Hoje, evitamos o envolvimento, privilegiamos o distanciamento. Evitamos o contato face a face e servir o outro. Contudo, queremos estar em todos os lugares, virtualmente.
Como então desenvolver o sentimento de pertencimento ao Secretariado, que é o objeto dessa reflexão?
De acordo com Santos (2011, p. 38), Bourdieu defende que a educação assume uma importância capital na entrada para o campo profissional.  Complementa afirmando que “a formação, além de capacitar tecnicamente o futuro profissional, realiza o papel de adequação do olhar, da visão de mundo do futuro profissional às expectativas do grupo profissional.”
Nesse artigo, adotamos formação como sinônimo de educação, pois os entendemos como “processo contínuo de construção de habilidades e competências capazes de possibilitar a um sujeito participar ativamente das mudanças sociais, econômicas e políticas, e não atuar como mero espectador relegado à condição de sujeito”. (WAMSER, 2000, p. 112)
Nessa direção, acreditamos que a educação é e será o caminho para se (re)construir uma consciência coletiva na criação do sentimento de pertencimento ao Secretariado. Nada se constrói, ou se reconstrói sem educação. Só avançaremos no Secretariado, e com o Secretariado, pelo viés da educação. A educação é a chave para abrir caminho para a excelência pessoal, social e profissional, e nos permite buscar sermos melhor hoje do que ontem. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação.
Como diz Freire (1997, p. 28), “a educação tem caráter permanente. Não há seres educados e não educados. Estamos todos nos educando.” Afinal, o ser humano é um ser inacabado, está sempre em construção. Aliado a isso, o processo de evolução das inovações tecnológicas e da própria sociedade exige uma educação permanente de seus componentes. Conforme Knechtel (1995, apud WAMSER, 2000), a educação permanente é decorrência de uma necessidade de se construir continuamente novas atitudes e novos modos de pensar, ler e interpretar o mundo, que sofre mudanças contínuas, velozes e turbulentas.
Defendemos aqui um processo de educação que proporcione uma leitura de mundo, o desenvolvimento da capacidade da pessoa de se engajar em projetos e ações, consciente de sua responsabilidade social e ética; consciente da necessidade de aprender a aprender e saber pensar, para poder agir e ajudar a transformar o contexto no qual está inserida. (WAMSER, 2000). Defendemos uma educação que dê conta de (re)construir uma consciência ampliada desse pertencimento tanto ao Todo Cósmico como ao Secretariado.
O papel dos cursos de Secretariado Executivo é a formação de secretários executivos para atuarem em um mercado altamente competitivo e em constantes transformações. Segundo a Proposta das Diretrizes Curriculares para os Cursos de Secretariado Executivo, devem oferecer ao mercado de trabalho profissionais com competência para promover e participar da melhoria do processo de gestão e desenvolvimento de organizações públicas e privadas, na busca do aumento de produtividade e competitividade. (WAMSER, 2000)
É necessário levar os estudantes a aprender a aprender e desenvolver a responsabilidade pela construção do seu conhecimento. Para Moraes (1997), o processo de construção do conhecimento acontece através da aprendizagem, que não significa memorização pura e simples, mas significa dizer que, se o sujeito efetivamente aprendeu, será capaz de construir o conhecimento tempos depois. O sujeito constrói o conhecimento, fazendo uso do raciocínio, da percepção do mundo externo pelos sentidos e sensações, dos sentimentos, das emoções, da razão, da intuição. Constrói o conhecimento a partir de sua interação com a realidade.
Fato é que a educação formal ainda está apoiada numa visão tradicionalista que reforça a fragmentação do conhecimento, continua centrada no professor e na transmissão do conteúdo. Wamser (2000) ressalta que os conteúdos trabalhados em sala de aula raramente são extraídos do cotidiano dos estudantes, de seus problemas práticos. São, algumas vezes, tão distantes que os estudantes questionam o porquê deste ou daquele assunto.
Alguns professores, infelizmente, estão voltados unicamente para sua disciplina. São raros os que têm visão geral das disciplinas que compõem a estrutura curricular do curso de Secretariado. Assumem as aulas, mas não se comprometem com o curso. Não têm uma participação efetiva na construção do conhecimento e desenvolvimento de competências e habilidades dos estudantes. Sabem pouco de seu cotidiano.
Por outro lado, há também professores empenhados em enfocar conteúdos cada vez mais próximos da realidade dos estudantes, usando a pesquisa como atitude cotidiana, evitando o mero repasse copiado de informações. Desafiam os estudantes através de reflexões, enquetes, situações-problemas e seminários, a não se contentarem em reproduzir determinado conhecimento acumulado, mas sim reelaborá-lo depois de confrontá-lo com suas próprias experiências. Enfim, propiciam condições para o estudante ler, questionar, investigar, refletir, analisar e emitir seu ponto de vista. (WAMSER, 2000)
Moraes (1997) é defensora de uma educação global que leve o estudante a trabalhar em harmonia e compreensão, a desenvolver padrões de comportamento como cooperação, criatividade, responsabilidade, respeito aos direitos humanos. Consciente de fraternidade humana e a percepção de que não estamos sós e de que não podemos crescer isolados. Podemos dizer que precisamos de um processo de educação que promova a expansão do capital espiritual com cujo potencial todo ser humano nasce, e que se reflete em valores, princípios e propósitos que compartilhamos.
Nas palavras de Zohar e Marshall (2004, p. 15), inteligência espiritual “é aquela por meio da qual acessamos nossos valores mais profundos, que nos faz usá-los nos processos mentais, nas decisões que tomamos e nas realizações que valem a pena.” Acrescentam que a inteligência espiritual é a inteligência moral, com a qual exercitamos a bondade, a verdade, a beleza e a compaixão.
Torna-se necessário, contudo, aprender a olhar sob uma perspectiva mais global, holística, integral, onde o “todo seria mais do que a soma das partes”, de acordo com Edgar Morin, lembrado por Moraes (1997, p. 72). E ao mesmo tempo “o todo está também em cada parte”, no que a autora destaca que “um indivíduo não está somente dentro da sociedade, mas a sociedade enquanto todo está também dentro do indivíduo (através de seus hábitos culturais, das influências em suas mentais etc)”.
Essa visão, para Moraes (1997, p. 73), “nos leva a compreender o mundo físico como uma rede de relações, de conexões, e não mais como uma entidade fragmentada, uma coleção de coisas separadas”. Vai exigir de cada um de nós um grande esforço, diariamente, para nos afastarmos sempre mais de uma visão de mundo cartesiana, mecânica, que nos separa de nossos relacionamentos, não reconhece a importância do contexto no qual estamos inseridos.
De forma mais objetiva, no sentido de desenvolver maior sentimento de pertencimento, a educação pode colaborar ajudando o profissional a, primeiro, compreender a si mesmo (autoconhecimento), para saber quem é, qual o seu mais alto potencial, quais os seus talentos, as suas qualidades e os defeitos que possui (MORAES, 1997). Segundo, pode ajudá-lo a desenvolver uma autoconsciência crescente do que é importante na vida e na profissão, de que a sua responsabilidade é bem mais ampla do que ter o Secretariado apenas enquanto profissão. A contribuição deve ser no sentido de possibilitar a compreensão das dimensões que a profissão abarca, no que ela se constitui para a sociedade enquanto profissão, e no que ele representa para a sociedade como pertencente ao grupo profissional. Zohar e Marshall (2004) enfatizam que o ser humano tem a obrigação de assumir alguma responsabilidade pela sociedade. Parafraseando, podemos dizer que um profissional tem a obrigação de assumir alguma responsabilidade pela profissão que decidiu ter.
Em terceiro ponto, a educação pode ajudar a construir uma postura profissional pautada em princípios e valores éticos, traduzidos em credibilidade, envolvimento, comprometimento e respeito com a coletividade em forma de liderança. Cabe ressaltar que o Secretariado merece contar com o surgimento de lideranças com credibilidade e capacidade para aglutinar, mobilizar e impulsionar a geração atual e as gerações futuras em um direcionamento comum de pertencimento. Lideranças capacitadas e qualificadas: técnica, metodológica e moralmente. Deverão ser pessoas íntegras, com sabedoria para servir a algo maior do que a si próprias.
A geração que esteve à disposição para servir e se dedicou às causas do Secretariado até hoje, sempre o fez com uma profunda sensação de que não podia deixar de fazer o que tinha de fazer. Foi determinada e persistente diante das adversidades. Agora, chegou a vez da geração jovem de continuar a tarefa, porque um profissional se ausenta de seu grupo ao se omitir na disponibilidade de liderar.
O momento é oportuno para isso. A profissão tem plenas condições de sair fortalecida na medida em que o sentimento de humildade for o elemento balizador entre as gerações do grupo profissional. A humildade, segundo Zohar e Marshall (2004, p. 145), “abre a possibilidade de aprender com os outros e com a própria experiência”, além de ajudar na percepção de se ver como parte da humanidade, do universo.
A sustentabilidade do Secretariado como profissão será garantida com o comprometimento de todas as partes, e à medida que aumentar o grau de pertencimento de cada uma delas. A tarefa não poderá ficar para o outro. É de todos que pertencem ao grupo profissional.
 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Este artigo teve o objetivo de iniciar uma reflexão acerca do sentimento de pertencimento que permeia o ser e fazer do profissional de Secretariado no cotidiano do mundo corporativo.
A reflexão aqui estabelecida foi amparada na leitura de alguns teóricos e estudiosos que tratam do objeto de análise. Contudo, foi particularmente baseada em nossa consciência de pertencer ao grupo profissional como secretária executiva trilíngue e como professora universitária.
Convém salientar que a nossa discussão em defesa da sustentabilidade do Secretariado sempre estará impregnada de fundamento histórico que começou a se escrever desde a decisão tomada em 1976 de que seria uma Secretária Executiva Trílingue bem sucedida. De alguém que acredita na profissão.
Assim, inicialmente, apresentamos alguns aspectos teóricos sobre o sentimento de pertencimento, sem, contudo, aprofundar a análise das teorias, em virtude de nossos estudos ainda serem muito insipientes.  Indiferente do grupo profissional, o sentimento de pertencimento deve levar um profissional a uma consciência de maior significado, a uma visão animadora ou inspiradora, a um profundo senso de propósito como ser humano e profissional.
Em seguida, abordamos conquistas do Secretariado enquanto profissão regulamentada. Permitimo-nos, também, tecer comentários a respeito de alguns indícios que merecem nossa inquietação por sinalizarem uma ausência de pertencimento por parte de integrantes do grupo profissional. Um secretário não pode mensurar o pertencimento à profissão unicamente pelo valor de seu contracheque no final de cada mês. Mas, deve mensurá-lo pelo nível de sentimentos de realização, gratidão, respeito, de bem estar, da melhoria de seu entorno, do contexto no qual está inserido, em ganho de qualidade de vida.
Após, indicamos, como caminho, para o desenvolvimento de um maior sentimento de pertencimento, um processo de educação que privilegie também a educação espiritual. Defendemos que é pelo viés da educação que se conseguirá neutralizar os indícios de ausência de pertencimento e coibir que outros surjam oportunamente.
De forma resumida, podemos dizer que demonstrar sentimento de pertencimento à profissão significa:
Ø  comprometimento e orgulho de exercê-la.

Ø  mostrar, com exemplos, que vale a pena optar pelo Secretariado.

Ø  valorizar a história de vida e levá-la em consideração na construção da carreira.

Ø  ser gestor do próprio conhecimento e construir um plano de carreira audacioso que contemple o desenvolvimento pessoal e profissional.

Ø  engajar-se em grupos de estudo, de pesquisa e de intercâmbio de experiências para aprender novas metodologias, compartilhar experiências e conhecimentos.

Ø  criar, ampliar e aprimorar as condições de assessoramento por intermédio da formação continuada para manter a empregabilidade, agregar valor e responsabilidades ao cargo.

Ø  construir uma imagem de credibilidade pela convivência harmoniosa com as pessoas nos diversos ambientes.

Ø  incentivar jovens a optarem pela profissão, enfatizando, entretanto, o quão importante é investir na formação acadêmica e profissional para atuar na área.

Ø  posicionar-se (jamais omitir-se) em discussões que porventura estejam se referindo à profissão como uma atividade de menor importância, depreciando sua imagem. Aproveitar a oportunidade para esclarecer o que é ser profissional do secretariado na atualidade.

Ø  evitar entrar na falácia de outrem para denegrir a profissão e o grupo profissional diante da sociedade, tanto presencialmente como nas redes sociais.

Ø  tratar as pessoas com dignidade e respeito, independentemente da posição destas na escala hierárquica.

Ø tornar-se um “líder a serviço”, ou seja, um líder disposto “a servir à comunidade, ao planeta, à humanidade, aos futuros, à própria vida”. (ZOHAR, MARSHALL, 2004, p. 37). Um líder que, ao lado das lideranças corporativas, possa atuar por intermédio de suas ideias e ações para contribuir na transformação do mundo dos negócios em um sistema mais humano e plenamente sustentável.
Certamente, essa postura de pertencimento irá, também, exigir das Instituições de Ensino Superior um sentimento de comprometimento com a formação de Secretários competentes pessoal e profissionalmente e capazes de viver e conviver com mudanças organizacionais, administrativas, tecnológicas e ambientais, e que, acima de tudo, se compreendam e sejam acessíveis, também, à compreensão das pessoas e das coisas. (WAMSER, 2000).
Para finalizar, acreditamos que este artigo é o impulso para o desencadeamento de discussões profícuas e enriquecedoras com o grupo profissional a respeito do sentimento de pertencimento ao Secretariado. 

REFERÊNCIAS 

ALBERNAZ, C. B. L. O secretário executivo como gatekeeper da informação. 2011. Tese de doutorado, Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil. Disponível em http://repositorio.unb.br/handle/10482/10089?mode=full&submit_simple=Mostrar+item+em+formato+completo.  Acesso em: 20 jan.2015. 

AMARAL, A. L. Pertencimento. Disponível em: http://escola.mpu.mp.br/dicionario/tiki-index.php?page=Pertencimento. Dicionário dos Direitos Humanos. Acesso em: 5 mai.2016. 

D`AMBRÓSIO, U. A era da consciência. São Paulo: Editora Fundação Peirópolis, 1997.
D´ELIA, M.E. Profissionalismo: não dá para não ter. São Paulo: Editora Gente, 1997.
FARINA, B.C.; TRARBACH, D.M.  Inclusão e a formação de lugares: do pertencimento à estigmatização. (2009) Disponível em: ttp://www.agb.org.br/XENPEG/artigos/ GT/GT3/c3%20(40).pdf Acesso em: 15 mai. 2016.
FREIRE, P. Educação e mudança. 21.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
MORAES, M. C. O paradigma educacional emergente. Campinas, SP: Papirus, 1997.
MUSSAK, E. Metacompetência: uma nova visão do trabalho e da realização pessoal. São Paulo: Editora Gente, 2003.
SANTOS, A. F. P. R. Principais abordagens sociológicas para análise das profissões. BIB, São Paulo, no. 71, 1º semestre de 2011, p. 25-43.

WAMSER, E. A secretária que faz. Blumenau: Nova Letra, 2010.
WAMSER, E. O impacto das mudanças organizacionais na profissão de secretário e a contribuição do estágio supervisionado em sua formação. 208f. 2000. Dissertação (Mestrado em Educação), Universidade Regional de Blumenau, Santa Catarina, 2000. Disponível em: http://www.abpsec.com.br/abpsec/index.php/a-pesquisa/repository/Dissertação/O-IMPACTO-DAS-MUDANÇAS-ORGANIZACIONAIS-NA-PROFISSÃO-DE-SECRETÁRIO-E-A-CONTRIBUIÇÃO-DO-ESTÁGIO-SUPERVISIONADO-EM-SUA-FORMAÇÃO/. Acesso em: 15 mai. 2016.
ZANETTI, E. Senso de Pertencimento. Disponível em: http://www.eloizanetti.com.br/blog/ 2010/09/senso-de-pertencimento/. Acesso em: 8 mai. 2016.
ZOHAR, D.; MARSHALL, I. Capital espiritual: usando as inteligências racional, emocional e espiritual para realizar transformações pessoais e profissionais. Rio de Janeiro: BestSeller, 2006.

 

Pertencimento ao Secretariado - parte II



3 SECRETARIADO: CONQUISTAS E OBSERVAÇÕES SILENCIOSAS
 

Somado às demandas e exigências advindas dos desafios de uma gestão sustentável, as empresas estão sendo afetadas pelo cenário atual do Brasil: um cenário nervoso, inseguro, agitado, incerto, devido às indefinições políticas e econômicas.
As empresas estão tendo que tomar decisões estratégicas, com sua implementação conduzida pela ação, pelo empenho e pela competência dos profissionais que nelas trabalham. Isso demanda profissionais responsáveis e qualificados para maximizar recursos e tempo, além do estabelecimento de uma relação de confiança pautada no envolvimento e no comprometimento. E, acima de tudo, em um aprendizado contínuo. Num piscar de olhos ou num vacilo, um profissional, indiferente de sua posição, poderá ter seu emprego afetado. Não há chance de improvisar no trabalho.
O profissional de Secretariado integra essa equipe como assessor direto de executivos no desempenho das funções. Tem responsabilidade com as gerações futuras e com a garantia de sua empregabilidade. Por quê? Primeiro, como ser humano que pertence a esse Todo Cósmico, como muito bem nos lembra D`Ambrósio (1997). Segundo, como profissional que fez o juramento de exercer a profissão dentro dos princípios da ética, da integridade, da honestidade, e da lealdade; respeitar a Constituição Federal, o Código de Ética Profissional e as normas institucionais; buscar o aperfeiçoamento contínuo e contribuir, com o trabalho, para uma sociedade mais justa e mais humana.
Se fossemos considerar unicamente a mensagem advinda desse juramento transferida literalmente para o fazer e o agir no cotidiano do Secretariado, teríamos automaticamente garantido o sentimento de pertencimento da categoria. No entanto, o sentimento de pertencimento decorre do estado emocional, cultural e social do indivíduo em determinado contexto. (FARINA, TRARBACH, 2009). Decorre da conscientização e clareza por parte do profissional de Secretariado de que ele integra um grupo profissional que é regido por uma legislação, um código de ética e um escopo de atividades e atribuições que lhe são pertinentes.
Comunica o seu sentimento de pertencimento, ou não, por intermédio da postura profissional e pessoal que decide adotar. Para Mussak (2003, p. 171), “postura é a maneira como nos posicionamos perante o mundo, e isso vale tanto para atitudes corporais como mentais.” Tem a ver com o fato de assumir uma posição no local em que se está. Postura é uma forma de comunicação por intermédio do qual o profissional diz se está ou não comprometido com os preceitos da profissão, e como quer ser visto e reconhecido no mercado de trabalho.
 Essa postura é percebida, por exemplo, quando o profissional é capaz de visualizar a trajetória que a profissão percorreu da época áurea da máquina de escrever até hoje, reino da Internet e do mundo virtual. Muitas foram as mudanças que ocorreram na função de secretário até chegar a ser uma profissão reconhecida por lei. Outras tantas foram as conquistas alcançadas. Sem a pretensão de lembrar todas, convém recordar algumas.
A publicação do código de ética profissional, a exigência de registro profissional e a formação em nível superior, são, no nosso entender, conquistas significativas, que levaram a tantas outras. A exigência de formação (bacharelado), por exemplo, desencadeou a abertura de cursos superiores de Secretariado em âmbito de Brasil, que por consequência provocou a necessidade de se capacitar professores de Secretariado. Programas de extensão universitária na área foram contemplados; a pesquisa científica em Secretariado foi ganhando corpo com o surgimento de revistas científicas; a constituição da Associação Brasileira de Pesquisa em Secretariado – ABPSEC, que responde de forma institucionalizada pela difusão da produção científica da área, bem como promover o intercâmbio e a cooperação entre professores e pesquisadores em Secretariado. Os eventos de Secretariado também se expandiram em todas as regiões do Brasil.
Em 2004, o Ministério da Educação (MEC), por intermédio da Secretaria de Educação Superior (SESu), aprovou e divulgou as Diretrizes Curriculares para os Cursos de Secretariado Executivo. O documento relaciona as competências e habilidades que as Instituições de Ensino Superior devem privilegiar na formação de bacharéis em Secretariado Executivo. Em 2006 iniciou-se o processo de aprendizagem dos estudantes pelo Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes – ENADE.
Concomitantemente, houve a abertura de cursos de pós-graduação lato sensu, que compreendem programas de especialização, bem como uma gama considerada de cursos de aperfeiçoamento profissional por diversas entidades e instituições.
São conquistas que resultaram do empenho, do envolvimento, do comprometimento de um grupo profissional pautado em um profundo senso de pertencimento ao Secretariado. São 30 anos de regulamentação que merecem ser comemorados pela categoria, porque acreditamos que cada um pertencente ao grupo profissional deu sua contribuição, do seu jeito, a partir de seu espaço e das condições que tinha. 

Por outro lado, também, há sinais que merecem uma atenção mais dirigida porque podem, num futuro próximo, fragilizar o Secretariado como profissão. Esses sinais tornaram-se recorrentes, nos últimos dois anos, em conversas com estudantes e bacharéis em Secretariado durante aulas na graduação ou pós-graduação e em cursos de desenvolvimento profissional, sem considerar os comentários que permeiam determinados grupos nas redes sociais. Por meio de conversas e observações fizemos uma silenciosa e pessoal análise do cenário, que pontuaremos nos parágrafos seguintes.
Apesar dos 30 anos de regulamentação, a sociedade ainda reluta em reconhecer o Secretariado como profissão. Verdade é que considerável proporção de bacharéis não consegue atribuir valor ao título, que é obtido por intermédio da formação. A formação, na interpretação de Parson apud Santos (2011), é a integração do profissional ao corpo social para o desempenho de sua função.
Ao citar estudos de William J. Goode, Santos (2011, p. 27-28) escreve que “a sociedade mantém o controle sobre os profissionais, que desempenham funções específicas no corpo social, e os grupos profissionais protegem os profissionais de serem constrangidos pela sociedade como um todo”. Com base na concepção weberiana de abordar as profissões no campo da Sociologia, Santos (2011, p. 31) destaca que as “profissões se estabelecem como unidade integradora e excludente ao mesmo tempo, cumprindo a dupla função de fechar os grupos profissionais em si e estabelecer a competição com os outros grupos profissionais”.
No subconsciente organizacional ainda persiste o entendimento do Secretariado  tratar-se de uma “ocupação”.  De acordo com Parsons (1939, apud SANTOS, 2011, p. 11), “toda profissão é ocupação, mas nem toda ocupação é profissão”, porque entende que uma profissão teria a preocupação de devolver à sociedade os conhecimentos desenvolvidos.
 A regulamentação e a formação não estão conseguindo dar força e sustentação à carreira em Secretariado. É recorrente vermos profissionais graduados traçando suas carreiras, a partir da sua “ocupação” nas empresas, desatrelando-as da profissão.
O registro profissional ainda é exigência feita por poucas empresas. A maioria ignora a legislação; faz isso com a conivência do bacharel em Secretariado, que se omite em requerer o registro profissional. A formação profissional, para Merton (apud SANTOS, 2011), permite a socialização dos futuros profissionais nos valores de serviço à sociedade. O sociólogo afirma que o diploma na mão é a forma de um profissional se distinguir do não profissional. Ou seja, daquele que não fez o percurso da formação.
Iniciativas isoladas conseguem manter o Secretariado vivo e presente no mundo corporativo, porém sem avançar. Entidades de liderança sindical, universidades, professores, estudantes, profissionais graduados, pesquisadores, cada um faz sua parte, porém com  dificuldade de juntos encontrarem o eixo norteador.  Torna-se primordial conversar mais para amarrar as pontas, que permanecem soltas desde a regulamentação profissional, e que poderão levar à perda de consistência ao se debater a profissão.
Os jovens bacharéis em Secretariado “gritam” e “brigam” pela sua inserção no mercado de trabalho. Contudo, não “gritam” e nem “brigam” pelo Secretariado enquanto profissão constituída que é. Fazendo analogia com as responsabilidades que temos diante da sustentabilidade de nosso planeta, da mesma forma que nos omitimos com relação às mudanças climáticas, como algo distante de nossa realidade, algo inatingível, a geração jovem do Secretariado omite-se das responsabilidades de se comprometer com a profissão. Tem dificuldades de se perceber no contexto do mercado de trabalho como profissional do Secretariado e delega a responsabilidade para lideranças sindicais, professores, pesquisadores.
Por sua vez, as Instituições de Ensino Superior, também, não têm conseguido se comprometer institucionalmente com a profissão de Secretário. O que se tem visto são resultados positivos conquistados pelo mérito de poucos docentes fortemente comprometidos e com um alto grau de senso de pertencimento.
Na direção contrária, também, acompanhamos professores de Secretariado optando por outras graduações porque pretendem migrar para outra área por terem desistido do Secretariado. Cabe, no entanto, perguntar: com que senso de pertencimento ministram suas aulas no Secretariado? Aliado a isso, assistimos a um esvaziamento dos cursos de Secretariado em âmbito de Brasil.
Em suma, são indícios de que o Secretariado carece de atenção por parte de seu grupo profissional, em uma época em que se vive virtualmente conectado e plugado com todas as partes do mundo, recebendo centenas de “curtidas” por socializar sentimentos e emoções. Por outro lado, perde-se a verdadeira noção de “pertencer”, de se sentir integrante, de se envolver, de se comprometer, tanto com o meio onde se vive, como com a profissão que se exerce.
 
 
 

Pertencimento ao Secretariado - parte I




1 INTRODUÇÃO

 
Certa tarde de julho de 2015, minha sobrinha Emily, sua amiga Fran e eu conversávamos na cozinha sobre o que estavam estudando na escola. Emily prontamente disse que em Ciências estavam desenvolvendo um projeto sobre a Mata Atlântica. E eu, diante de minha sabedoria de tia, disse: Emily, você lembra que no ano passado ficamos um final de semana na casa do avô da Fran no meio da floresta? Lá estávamos cercados pela Mata Atlântica. E ela respondeu: “Tia Eliane, você sabia que aqui na sua casa você tem Mata Atlântica?” Imediatamente ela saiu da cozinha e foi até o escritório. Parou defronte a impressora, tirou uma folha de papel A4, mostrou-me dizendo: “Tia Eliane, isso aqui é Mata Atlântica.” Minha resposta gaguejando: “Você tem razão, Emily. Quanta Mata Atlântica eu tenho aqui em casa. E na estante de livros então?”
Na sua maneira singela, Emily demonstrou e exercitou seu sentimento de pertencimento à natureza. Aliás, um sentimento que praticamos no cotidiano onde moramos, onde trabalhamos, onde nos divertimos, onde estudamos, no grupo de amigos com os quais convivemos.
Zanetti (2010) lembra que o fato de se pertencer a uma coletividade ser tão antiga e óbvia não se dá conta de sua importância. Segundo ele, o senso de pertencimento nos dá a sensação de participarmos de ”alguma coisa maior do que nós mesmos”. Dá-nos força e incentivo para lutar por uma causa, que será comum também para aqueles que estão ao nosso lado no dia-a-dia. 
Certamente temos consciência desse pertencimento ao cosmos, mesmo que a partir de pequenas ações, assim como uma menina de 8 anos de idade, que está no terceiro ano do ensino fundamental. Pequenas ações que fazem muita diferença no todo. Fazem e farão também muita diferença em nosso ambiente de trabalho que conta com a contribuição de cada um para a construção de um mundo mais harmonioso, mais fraterno, solidário, com consciência ecológica, relacional e sustentável.
Perguntamos: Os profissionais do Secretariado têm consciência de seu pertencimento à profissão de Secretário? Em que circunstâncias esse sentimento é demonstrado? Como desenvolvê-lo para agregar valor à carreira?
Estas questões impulsionam-nos a instigar a classe secretarial no sentido de chamar a atenção sobre a importância de se perceber no grupo profissional para refletir sobre o sentimento de pertencimento no sentido de buscar uma melhor compreensão de como este sentimento pode agregar valor à caminhada profissional.
Nesse sentido, este artigo tem como objetivo sensibilizar os profissionais do Secretariado a fazer uma reflexão sobre o seu sentimento de pertencimento ao Secretariado, para que cientes de seu pertencimento, ou não, à profissão, consigam (re)planejar a trajetória profissional diante do que almejam para a vida pessoal e profissional. Adverti-los de que isso significa que estejam atentos à postura profissional que decidirem adotar ou construir ao longo do processo de formação e a partir do contexto onde estão inseridos.
Para tanto, num primeiro momento, buscamos fazer uma breve incursão conceitual sobre o sentimento de pertencimento. Convém salientar que não se tem a pretensão, nesse artigo, desenvolver discussão e análise aprofundadas dos conceitos teóricos que envolvem e dizem respeito ao sentimento de pertencimento, sob os pontos de vista de renomados autores e estudiosos no campo da sociologia ou da psicologia social, tendo em vista nossos estudos ainda serem insipientes para a envergadura que a temática em questão merece. Ao mesmo tempo, concordamos que um aprofundamento conceitual é importante e se fará necessário em outra oportunidade.
Num segundo momento, contextualizamos brevemente o cenário da profissão de Secretário mencionando conquistas alcançadas enquanto profissão constituída e regulamentada que é pela Lei 7.377 de 30 de setembro de 1985, adaptada à realidade da época pela Lei 9.261, de 10 de janeiro de 1996. Ainda, apontamos indícios de ausência de pertencimento de integrantes do grupo profissional que merecem ser observados.
O terceiro momento procura enfatizar a necessidade de se desencadear um amplo processo de educação que promova a expansão do capital espiritual, e que contribua na construção de uma postura profissional adequada aos preceitos da profissão e, por conseguinte, fortaleça o pertencimento ao Secretariado.
Para finalizar, as considerações finais clarificam a certeza de que os sinais de pertencimento podem ser fortalecidos, ou a ausência do sentimento de pertencimento pode ser superado e erradicado, com um processo de educação que privilegie a formação de secretários competentes e éticos, capazes de enfrentar o instável mundo das organizações e de sua administração, bem como acompanhar o acelerado avanço da tecnologia de informação e de comunicação.
Assim, esperamos contribuir com o grupo profissional para que seja capaz de se autoavaliar – a partir de sua caminhada – se o envolvimento e o comprometimento com a profissão estão a contento para alcançar os objetivos que almeja. Ou se será necessário (re)adequar-se para contemplar o envolvimento com a profissão de maneira mais satisfatória.
Entendemos que nos compete, como formadora de secretários, instigar profissionais (aqui entendidos estudantes e bacharéis) à reflexão e à discussão sobre pertencimento para que possam refletir e agir dentro e a partir da realidade profissional. Nossa contribuição, nesse artigo, é baseada em pesquisa bibliográfica e em nossa maneira particular e individual de observar o Secretariado por intermédio de nossa leitura de mundo advinda de vivências e convivências como professora universitária na área de Secretariado desde 1992 e, principalmente, como alguém comprometido com a formação contínua de profissionais do Secretariado com as competências requeridas pelo mundo do trabalho e conscientes de seu papel na sociedade.
2 PERTENCIMENTO: BREVE INCURSÃO CONCEITUAL
As pessoas precisam e se sentem bem ao dizer que fazem parte de algum grupo ou programa, ou ação; têm orgulho em pertencer àquele momento da história, segundo Zanetti (2010). No senso comum, dizemos que o ser humano nasceu para viver em sociedade, porque não consegue viver sozinho. Estudiosos defendem que a leitura de mundo de uma pessoa está amparada em sua história de vida. 
Quando se refere à situação planetária e ao futuro do cosmos, D´Ambrósio (1997) evidencia que cada um de nós é o que é, dentro de determinado contexto. Como educador matemático brasileiro e internacional, um defensor de se promover uma cultura planetária, uma educação multicultural, uma educação para a paz, capaz de eliminar as diferenças, o autor assevera que é necessário entender o homem na sua integralidade porque é o homem integral “que procura entender a sua posição ao longo da história e procura adquirir conhecimento para sobreviver e transcender.” (p. 30).
Afirma, ainda, que estamos inseridos no cosmos e que “somos tudo isso ao mesmo tempo, uma realidade individual, uma realidade social, uma realidade planetária, uma realidade cósmica. Temos que entrar em harmonia com tudo isso. Temos que entrar em harmonia com a gente mesmo, em harmonia com a sociedade, com o planeta e com o cosmos.” (D`AMBRÓSIO, 1977, p. 33).
O autor trata de nossos relacionamentos com nossos semelhantes e com a própria natureza. Da interdependência entre o ambiente e o nosso ser, entre nosso pensamento, que incorporamos por meio da percepção captada pelos órgãos dos sentidos. Interdependência essa que por si só implica um imenso respeito que devemos ter diante das diferenças, da diversidade entre os seres, das diferenças cultural e social.
O fato de sermos interdependentes e inseparáveis de um Todo Cósmico, onde ações nossas em Florianópolis, os desmatamentos no Pará, a desertificação no Nordeste, o derretimento das camadas de gelo no Polo Ártico, o aumento do nível dos oceanos, a exaustão dos aquíferos, o aquecimento global, tudo impacta na natureza, em nossa realidade e na realidade do próximo, onde quer que se esteja.
D`Ambrosio (1997, p. 30) enfatiza que buscamos no cosmos a nossa posição e que é “somente a partir da hora que eu reconheço que eu sou eu é que sou um indivíduo. Mas eu sou nada se não tiver o outro.” Um reconhecimento que buscamos quando pertencemos a um meio e nesse meio sentimo-nos integrados.
Para Abraham Maslow, psicólogo americano, o ser humano, como ser social, tem uma necessidade de pertencer a um grupo. Acreditava que muito do comportamento do ser humano pode ser explicado pelas suas necessidades e pelos seus desejos. Na pirâmide das necessidades que elaborou, a necessidade de pertencer ocupa o terceiro degrau. Conforme Zohar e Marshall (2004), ao se referirem à hierarquia das necessidades de Maslow, afirmam que, além da necessidade de sobrevivência a qualquer custo, seguida pela necessidade de segurança, são contempladas necessidades mais elevadas, como estabelecer vínculos sociais (sensação de pertencer), ter autoestima e auto atualização, que denominam de necessidade de crescimento espiritual e psicológico e de encontrar sentido na vida.
Os autores ainda lembram que desde que Maslow elaborou sua pirâmide, houve um constante progresso nos estudos de psicólogos, antropólogos e neurocientistas para entender melhor a natureza humana. Estudos revelaram que os seres humanos são primariamente criaturas que procuram significado e valor (auto atualização). “Precisamos da sensação de que estamos fazendo algo que vale a pena e do impulso de um propósito.” (ZOHAR, MARSHALL, 2004, p. 34). O ser humano precisa se sentir aceito, útil, valoroso. Em suma, fazendo parte de algo.
No Dicionário de Direitos Humanos, que poderá ser acessado pelo portal da Escola Superior do Ministério Público da União, Amaral (2006, p. s/n), escreve que a sensação de pertencimento “significa que precisamos nos sentir como pertencentes a tal lugar e ao mesmo tempo sentir que esse tal lugar nos pertence, e que assim acreditamos que podemos interferir e, mais do que tudo, que vale a pena interferir na rotina e nos rumos desse tal lugar.”
Ainda, nas palavras de Amaral (2006, p. s/n), pertencimento, ou o sentimento de pertencimento, “é a crença subjetiva numa origem comum que une distintos indivíduos. Os indivíduos pensam em si mesmos como membros de uma coletividade na qual símbolos expressam valores, medos e aspirações.”
Amaral (2006, p. s/n), baseado em Weber, diz que “a comunidade se auto define e estabelece as suas fronteiras, bem como estabelece meios de diferenciação tanto interna como externa. Os costumes que essa comunidade é capaz de gerar podem garantir a sua sobrevivência e reprodução.” Complementa afirmando que é a comunidade que está voltada para a ação, partilhando valores, costumes, uma memória comum, criando uma “comunidade de sentido”, independentemente de laços sanguíneos, na qual há um “sentimento de pertencimento”, que tem relação com a noção de participação.
Na medida em que o grupo se sente ator da ação em curso, o que for sendo construído de forma participativa desenvolverá a corresponsabilidade, pertencendo os resultados a todos desse grupo, pois conterá um pouco de cada um. A essência de um grupo “não é a semelhança ou a diferença entre seus membros, mas a sua interdependência”, destaca Lewin (1978, apud ALBERNAZ, 2011, p. 122). A autora salienta que quase toda a vida não agimos apenas como indivíduos, mas como membros de diferentes grupos sociais. Adverte que a relação do indivíduo com o seu grupo é o alicerce para o seu sentimento de segurança ou de insegurança.
As profissões organizam-se como grupos sociais e podem atuar no mercado de trabalho a partir de sua regulamentação profissional, do estabelecimento de um código de ética profissional, pela formação e pelo reconhecimento social. Santos (2011, p. 37) sustenta que Bourdieu entende “uma profissão como um grupo social dotado de recursos sociais específicos para delimitar seu campo no espaço social.”
Sobre essa delimitação, Santos (2011, p. 28), ao referenciar Abbott, destaca que “os grupos profissionais lutam por áreas específicas da divisão do trabalho.” O instrumento de organização dessa disputa no sistema profissional é o grau de abstração do conhecimento que a profissão controla. “Quanto mais abstrato o conhecimento, maior o poder da profissão” (p. 28).
O mesmo autor adverte que profissões que não conseguem tornar o seu corpo de conhecimento suficientemente abstrato tendem a desaparecer.  Reside nesse sentido a necessidade de se estabelecer uma espécie de laço entre o grupo profissional e seus conhecimentos específicos, que Abbot apud Santos (2011) denomina de jurisdição. O autor também chama a atenção para a importância da educação (conhecimento) para autonomização dos grupos profissionais.
Para Weber (1999, apud SANTOS, 2011, p. 31), “a profissão seria o meio de o indivíduo capacitado se inserir no mercado para satisfazer suas necessidades materiais ou imateriais”, como por exemplo, posições sociais, honras, títulos, em outras palavras, poder social. O mesmo pensamento é endossado por Larson (1977, apud SANTOS, 2011, p. 32) que entende “a profissionalização como uma estratégia para conquistar poder, prestígio e renda na sociedade”.
Aliado a isso, há a competição no mercado de trabalho e o fato de que não haverá espaço para profissionais que apenas se contentam em cumprir suas horas, fazer o seu trabalho e ir para casa. Terão que assumir responsabilidades, trabalhar por metas com as especificações de desempenho.
Da mesma forma que é preciso nutrir o sentimento de pertencimento ao Cosmos para cada um atingir seu estado de paz interior, que por sua vez é essencial, nas palavras de D`Ambrosio (1997), para que se encontre uma paz social, entendemos que é preciso se desenvolver o sentimento de pertencimento à profissão que se opta ter para se inserir e atuar no mundo do trabalho.
A consciência de pertencimento, ou o sentimento de pertencimento de um profissional, não é automático, e nem acontece imediatamente a partir do momento em que, por intermédio de seu processo de formação, tem a condição de entrar e se manter no grupo profissional. O comprometimento com o grupo profissional é uma estratégia para lutar por uma colocação no mercado de trabalho. Porém, não unicamente. O comprometimento também resulta na criação de um vínculo que permite contribuir com o grupo, sentir-se integrado e fazendo parte da construção da história desse grupo.
É sobremodo importante refletir e buscar uma compreensão, mesmo que preliminar, do sentimento de pertencimento que permeia – ou não – o profissional de Secretariado. Torna-se necessário, contudo, aprender a olhar sob uma perspectiva mais global, holística, integral. Um aprendizado que vai exigir de cada um de nós um grande esforço, diariamente, para nos afastarmos sempre mais de uma visão de mundo cartesiana, mecânica, que nos separa de nossos relacionamentos, não reconhece a importância do contexto no qual estamos inseridos.

 

terça-feira, 5 de julho de 2016

Gestão do tempo nas reuniões corporativas


  
Elen Mari Brandes Siegel
João Mario de Moura
Nair Teodoro Machado 
Professora Eliane Wamser
Disciplina: Tempo, Organização e Planejamento
Curso de Pós Graduação em Assessoria Executiva Empresarial
Universidade Regional de Blumenau – FURB
 

1 INTRODUÇÃO


Se considerarmos o significado literal da palavra reunião, vamos partir do pressuposto de que ela existe para decidir alguma coisa considerada útil, e que deve ser produtiva.

É fato que no atual cenário corporativo, dinâmico, competitivo e veloz, e com ênfase nas relações interpessoais, as organizações têm a necessidade de acompanhar o ritmo e as mudanças, a fim de ser e se manter sustentáveis. Dentro deste cenário, é comum percebermos o quão banalizada está a busca de soluções e resoluções de problemas, utilizando-se das reuniões, na grande maioria das vezes, sem um devido planejamento.

De acordo com Christian Barbosa, especialista em metodologias voltadas à gestão do tempo, esta tendência a intensificar as solicitações e participações em reuniões, vem desde muito tempo, antes mesmo da descoberta do fogo, onde as pessoas já sentiam a necessidade de ficar juntas (seja para se aquecer ou caçar).

O comportamento de promover reuniões de forma exacerbada é natural, pois tem-se a ideia de que se algo pode ser conversado em grupo, porque fazê-lo, sozinho?

Acontece que para manter-se de forma sustentável no âmbito corporativo, a organização deve ter foco, acima de tudo, na sua performance ligada à produtividade. Logo, planejar, organizar e acompanhar suas ações devem ser práticas cotidianas para as organizações que almejam otimizar seu desempenho na busca pelos objetivos.  

2 REUNIÕES PRECISAM TER BONS RESULTADOS

Através de sua obra “Estou em Reunião” (Editora Agir, 2008), Christian Barbosa nos convida a refletir sobre as características das reuniões ineficazes, assim como nos alerta para os prejuízos absurdos que as reuniões causam às empresas.

Considerando a ênfase dada ao relacionamento interpessoal, à valorização do conhecimento e ao reconhecimento do outro como parceiro da organização, podemos constatar que extinguir a prática de reunir-se dentro do processo de gestão organizacional, não é tão fácil e natural como deveria.
Culpados pelas Reuniões Ineficazes

ü   reunir-se pelo simples fato de estar junto, não decidir sozinho;
ü   ausência de um líder (condutor), presença de lideranças situacionais;
ü   necessidade autovalorização/reconhecimento;
ü   falsa sensação de que algo está sendo feito;
ü   muita ação/pouca solução;
2.1 A REUNIÃO IDEAL

Segundo Christian Barbosa (2008, p. 21), o melhor tipo de reunião é a que não acontece. O ideal, baseado na metodologia apresentada pelo autor, especializado em técnicas focadas em produtividade, é reduzirmos ao máximo a frequência de realização de reuniões, e só realizá-las em casos primordiais, após um minucioso planejamento, que consiste na utilização da metodologia e estruturação através da aplicação “PAT” Plan (planejamento), Act (ação), Track (acompanhamento).

a) Plan - palnejamento

Fase que antecede a reunião, elaboração dos itens de relevância para que a reunião aconteça: logística, infraestrutura necessária, convocação adequada (priorizando a socialização imediata do assunto a ser tratado e especificação dos objetivos a serem atingidos).

Como pode-se perceber, mesmo antes de ser realizada, no planejamento é que começam as ações que tornarão a reunião eficaz.

b) Act - ação

Fase de realização, do fazer acontecer. Além de deixar os objetivos encaminhados aos envolvidos quando na convocação, visível em todo momento do encontro, deve-se dar ênfase ao papel do condutor.

Sabe-se que mais de 60% das reuniões realizadas nas organizações não tem foco, nem tão pouco são eficazes na obtenção dos objetivos, em decorrência de má condução. Cabe ao condutor direcionar as ideias, com foco no objetivo proposto na convocação.

c) Track - acompanhamento

Finalizada a reunião, a fase de acompanhamento está diretamente ligada a qualidade das fases anteriores, ou seja, se a reunião foi mal convocada, ou posteriormente mal conduzida, a fase de acompanhamento será mais complexa, pois necessitará de reforços, revisão de ações, entre outros percalços.

Por outro lado, uma vez que bem planejada e executada, o acompanhamento será simples e fácil de ser concluído.

Trata-se do fechamento de todo o processo, uma vez que reforça todas as decisões tomadas, formaliza as informações levantadas, e direciona os envolvidos para as ações posteriores e ressalta o hábito de boas reuniões na organização.

O acompanhamento, além de certificar-se da eficácia da reunião, envolve as pessoas e traz o pertencimento do indivíduo a conquista.

2.2 O CENÁRIO IDEAL

Dentro da metodologia de Christian Barbosa, o cenário ideal, de acordo com a ênfase despendida no processo de realização de reuniões, sempre que não podem ser evitadas, consiste:

ü   40% Planejamento
ü   50% Condução
ü   10% Acompanhamento

3 CONSIDERANDO A TRÍADE NAS REUNIÕES

Christian Barbosa em sua obra A tríade do Tempo (Editora Sextante, 2011), nos traz uma ferramenta poderosa voltada para a gestão do tempo. O autor divide as atividades realizadas em Importantes, Urgentes e Circunstanciais.

O ideal seria que houvesse um planejamento e controle de nossas atividades, para sempre conseguirmos focar nas atividades importantes, que são atividades planejadas, que geram resultados, nos dão prazer, pois temos tempo para realizá-las.

Trazendo este cenário para as reuniões, nosso objeto de estudo, consideramos que o ideal seria que todas as reuniões dentro de uma organização fossem importantes.

Reuniões Importantes são reuniões planejadas, bem conduzidas, que envolvem seus participantes nas ações claramente definidas, possuem um objetivo específico e finalmente que geram ações futuras, com um acompanhamento preciso que avaliará a eficiência da reunião.

Se um assunto não foi resolvido em tempo hábil, com um planejamento conciso, ele vira um assunto urgente. Assuntos urgentes devem ser tratados logo, sem muito tempo para planejamento, acompanhamento, porque o foco de atenção está única e exclusivamente voltado para a resolução de um problema. Assuntos urgentes serão tratados nas reuniões urgentes.

Reuniões Urgentes tratam de atividades em atraso, que precisam ser executadas imediatamente. Não terão tempo hábil para um planejamento e acompanhamento eficaz. Envolvem geralmente um número excessivo de pessoas com a finalidade de buscar soluções, pessoas convocadas aleatoriamente, que geralmente não contribuem efetivamente para solucionar o problema.

Ainda encontramos nas organizações, e podemos atrelar a última instância da trilogia de Christian Barbosa, as formas Circunstanciais de utilizar o tempo. Uma circunstância, sempre depende de alguma coisa, está atrelada a fatores que a influenciam.

Reuniões Circunstanciais são tidas como desperdiçadores do tempo, uma vez que não há um propósito definido, nem tão poucos resultados mensuráveis.

Não agregam valor, não possuem uma pauta e assuntos coerentes definidos, envolvendo geralmente um número elevado de pessoas que deveriam estar contribuindo para a organização em outros sentidos.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Gerenciar o tempo não é uma habilidade exclusivamente necessária para sua vida pessoal, geralmente ligada com a qualidade de vida.

No âmbito das organizações, cada vez mais, indivíduos serão cobrados acerca de sua produtividade e eficiência. É necessário ter uma conscientização corporativa que prioriza a otimização do tempo e performance no trabalho.

Identificadas práticas de reuniões ineficazes dentro das organizações, sem dúvida, faz-se necessário introduzir ações e metodologias a fim de fomentar esta ferramenta de gestão para a obtenção dos objetivos e sucesso da organização.

Uma vez que ignorada a definição das prioridades na forma de utilização do tempo dentro da organização, o cenário ficará vulnerável a ser “levado” e surgindo, conforme desdobramento das circunstâncias.

É preciso decidir que o tempo deve ser organizado e gerido para que a busca ao objetivo comum flua dentro de um planejamento, uma boa execução e/ou direção, e controles sólidos.

Durante o processo de aprendizado dentro da organização e planejamento do tempo, podemos constatar que as reuniões são um problema comum a muitas organizações, mesmo que de diferentes segmentos. Assim o aprofundamento na metodologia de Cristian Barbosa, nos fez concluir que é possível utilizar as reuniões como uma ferramenta eficaz na obtenção dos objetivos, uma vez que bem planejada, executada e acompanhada dentro de suas perspectivas.

Sugerimos que todos se questionem e busquem uma conscientização corporativa, fazendo um levantamento dos hábitos ineficazes e improdutivos atuais que envolvem as reuniões, mostrem o desperdício gerado, e convençam sua liderança através da apresentação do cenário atual e criando uma visão para a necessidade de mudar.

A partir daí, começam ousados desafios, ou seja, quanto melhores ficarmos, mais teremos a capacidade de resolver as coisas sem precisar de modelos formais de reuniões.

 

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Christian. Estou em Reunião: um programa para modernizar as reuniões na sua empresa. Rio de Janeiro: Editora Agir 2005.

BARBOSA, Christian. A Tríade do Tempo: Um modelo comprovado para organizar sua vida e aumentar sua produtividade e equilíbrio. Rio de Janeiro: Sextante 2011.