Vivências e convivências

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terça-feira, 12 de julho de 2016

Pertencimento ao Secretariado - parte II



3 SECRETARIADO: CONQUISTAS E OBSERVAÇÕES SILENCIOSAS
 

Somado às demandas e exigências advindas dos desafios de uma gestão sustentável, as empresas estão sendo afetadas pelo cenário atual do Brasil: um cenário nervoso, inseguro, agitado, incerto, devido às indefinições políticas e econômicas.
As empresas estão tendo que tomar decisões estratégicas, com sua implementação conduzida pela ação, pelo empenho e pela competência dos profissionais que nelas trabalham. Isso demanda profissionais responsáveis e qualificados para maximizar recursos e tempo, além do estabelecimento de uma relação de confiança pautada no envolvimento e no comprometimento. E, acima de tudo, em um aprendizado contínuo. Num piscar de olhos ou num vacilo, um profissional, indiferente de sua posição, poderá ter seu emprego afetado. Não há chance de improvisar no trabalho.
O profissional de Secretariado integra essa equipe como assessor direto de executivos no desempenho das funções. Tem responsabilidade com as gerações futuras e com a garantia de sua empregabilidade. Por quê? Primeiro, como ser humano que pertence a esse Todo Cósmico, como muito bem nos lembra D`Ambrósio (1997). Segundo, como profissional que fez o juramento de exercer a profissão dentro dos princípios da ética, da integridade, da honestidade, e da lealdade; respeitar a Constituição Federal, o Código de Ética Profissional e as normas institucionais; buscar o aperfeiçoamento contínuo e contribuir, com o trabalho, para uma sociedade mais justa e mais humana.
Se fossemos considerar unicamente a mensagem advinda desse juramento transferida literalmente para o fazer e o agir no cotidiano do Secretariado, teríamos automaticamente garantido o sentimento de pertencimento da categoria. No entanto, o sentimento de pertencimento decorre do estado emocional, cultural e social do indivíduo em determinado contexto. (FARINA, TRARBACH, 2009). Decorre da conscientização e clareza por parte do profissional de Secretariado de que ele integra um grupo profissional que é regido por uma legislação, um código de ética e um escopo de atividades e atribuições que lhe são pertinentes.
Comunica o seu sentimento de pertencimento, ou não, por intermédio da postura profissional e pessoal que decide adotar. Para Mussak (2003, p. 171), “postura é a maneira como nos posicionamos perante o mundo, e isso vale tanto para atitudes corporais como mentais.” Tem a ver com o fato de assumir uma posição no local em que se está. Postura é uma forma de comunicação por intermédio do qual o profissional diz se está ou não comprometido com os preceitos da profissão, e como quer ser visto e reconhecido no mercado de trabalho.
 Essa postura é percebida, por exemplo, quando o profissional é capaz de visualizar a trajetória que a profissão percorreu da época áurea da máquina de escrever até hoje, reino da Internet e do mundo virtual. Muitas foram as mudanças que ocorreram na função de secretário até chegar a ser uma profissão reconhecida por lei. Outras tantas foram as conquistas alcançadas. Sem a pretensão de lembrar todas, convém recordar algumas.
A publicação do código de ética profissional, a exigência de registro profissional e a formação em nível superior, são, no nosso entender, conquistas significativas, que levaram a tantas outras. A exigência de formação (bacharelado), por exemplo, desencadeou a abertura de cursos superiores de Secretariado em âmbito de Brasil, que por consequência provocou a necessidade de se capacitar professores de Secretariado. Programas de extensão universitária na área foram contemplados; a pesquisa científica em Secretariado foi ganhando corpo com o surgimento de revistas científicas; a constituição da Associação Brasileira de Pesquisa em Secretariado – ABPSEC, que responde de forma institucionalizada pela difusão da produção científica da área, bem como promover o intercâmbio e a cooperação entre professores e pesquisadores em Secretariado. Os eventos de Secretariado também se expandiram em todas as regiões do Brasil.
Em 2004, o Ministério da Educação (MEC), por intermédio da Secretaria de Educação Superior (SESu), aprovou e divulgou as Diretrizes Curriculares para os Cursos de Secretariado Executivo. O documento relaciona as competências e habilidades que as Instituições de Ensino Superior devem privilegiar na formação de bacharéis em Secretariado Executivo. Em 2006 iniciou-se o processo de aprendizagem dos estudantes pelo Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes – ENADE.
Concomitantemente, houve a abertura de cursos de pós-graduação lato sensu, que compreendem programas de especialização, bem como uma gama considerada de cursos de aperfeiçoamento profissional por diversas entidades e instituições.
São conquistas que resultaram do empenho, do envolvimento, do comprometimento de um grupo profissional pautado em um profundo senso de pertencimento ao Secretariado. São 30 anos de regulamentação que merecem ser comemorados pela categoria, porque acreditamos que cada um pertencente ao grupo profissional deu sua contribuição, do seu jeito, a partir de seu espaço e das condições que tinha. 

Por outro lado, também, há sinais que merecem uma atenção mais dirigida porque podem, num futuro próximo, fragilizar o Secretariado como profissão. Esses sinais tornaram-se recorrentes, nos últimos dois anos, em conversas com estudantes e bacharéis em Secretariado durante aulas na graduação ou pós-graduação e em cursos de desenvolvimento profissional, sem considerar os comentários que permeiam determinados grupos nas redes sociais. Por meio de conversas e observações fizemos uma silenciosa e pessoal análise do cenário, que pontuaremos nos parágrafos seguintes.
Apesar dos 30 anos de regulamentação, a sociedade ainda reluta em reconhecer o Secretariado como profissão. Verdade é que considerável proporção de bacharéis não consegue atribuir valor ao título, que é obtido por intermédio da formação. A formação, na interpretação de Parson apud Santos (2011), é a integração do profissional ao corpo social para o desempenho de sua função.
Ao citar estudos de William J. Goode, Santos (2011, p. 27-28) escreve que “a sociedade mantém o controle sobre os profissionais, que desempenham funções específicas no corpo social, e os grupos profissionais protegem os profissionais de serem constrangidos pela sociedade como um todo”. Com base na concepção weberiana de abordar as profissões no campo da Sociologia, Santos (2011, p. 31) destaca que as “profissões se estabelecem como unidade integradora e excludente ao mesmo tempo, cumprindo a dupla função de fechar os grupos profissionais em si e estabelecer a competição com os outros grupos profissionais”.
No subconsciente organizacional ainda persiste o entendimento do Secretariado  tratar-se de uma “ocupação”.  De acordo com Parsons (1939, apud SANTOS, 2011, p. 11), “toda profissão é ocupação, mas nem toda ocupação é profissão”, porque entende que uma profissão teria a preocupação de devolver à sociedade os conhecimentos desenvolvidos.
 A regulamentação e a formação não estão conseguindo dar força e sustentação à carreira em Secretariado. É recorrente vermos profissionais graduados traçando suas carreiras, a partir da sua “ocupação” nas empresas, desatrelando-as da profissão.
O registro profissional ainda é exigência feita por poucas empresas. A maioria ignora a legislação; faz isso com a conivência do bacharel em Secretariado, que se omite em requerer o registro profissional. A formação profissional, para Merton (apud SANTOS, 2011), permite a socialização dos futuros profissionais nos valores de serviço à sociedade. O sociólogo afirma que o diploma na mão é a forma de um profissional se distinguir do não profissional. Ou seja, daquele que não fez o percurso da formação.
Iniciativas isoladas conseguem manter o Secretariado vivo e presente no mundo corporativo, porém sem avançar. Entidades de liderança sindical, universidades, professores, estudantes, profissionais graduados, pesquisadores, cada um faz sua parte, porém com  dificuldade de juntos encontrarem o eixo norteador.  Torna-se primordial conversar mais para amarrar as pontas, que permanecem soltas desde a regulamentação profissional, e que poderão levar à perda de consistência ao se debater a profissão.
Os jovens bacharéis em Secretariado “gritam” e “brigam” pela sua inserção no mercado de trabalho. Contudo, não “gritam” e nem “brigam” pelo Secretariado enquanto profissão constituída que é. Fazendo analogia com as responsabilidades que temos diante da sustentabilidade de nosso planeta, da mesma forma que nos omitimos com relação às mudanças climáticas, como algo distante de nossa realidade, algo inatingível, a geração jovem do Secretariado omite-se das responsabilidades de se comprometer com a profissão. Tem dificuldades de se perceber no contexto do mercado de trabalho como profissional do Secretariado e delega a responsabilidade para lideranças sindicais, professores, pesquisadores.
Por sua vez, as Instituições de Ensino Superior, também, não têm conseguido se comprometer institucionalmente com a profissão de Secretário. O que se tem visto são resultados positivos conquistados pelo mérito de poucos docentes fortemente comprometidos e com um alto grau de senso de pertencimento.
Na direção contrária, também, acompanhamos professores de Secretariado optando por outras graduações porque pretendem migrar para outra área por terem desistido do Secretariado. Cabe, no entanto, perguntar: com que senso de pertencimento ministram suas aulas no Secretariado? Aliado a isso, assistimos a um esvaziamento dos cursos de Secretariado em âmbito de Brasil.
Em suma, são indícios de que o Secretariado carece de atenção por parte de seu grupo profissional, em uma época em que se vive virtualmente conectado e plugado com todas as partes do mundo, recebendo centenas de “curtidas” por socializar sentimentos e emoções. Por outro lado, perde-se a verdadeira noção de “pertencer”, de se sentir integrante, de se envolver, de se comprometer, tanto com o meio onde se vive, como com a profissão que se exerce.
 
 
 

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